Religião e Divindades na Gália #1 – Estudos e Notas acerca da Religião na Gália – Parte I

Religião e Divindades na Gália é uma nova série de textos que terá como foco abordar e tratar da religião e das divindades no território conhecido como Gália, região que hoje abrange a França, partes da Alemanha e Bélgica e o norte da Itália.

O texto abaixo é a primeira parte de uma tradução, livre e não integral, de trechos do texto Los Dioses de La Hispania Céltica.

Autor:  JUAN CARLOS OLIVARES PEDREÑO – Professor Contratado Doutor no Departamento de Pré-história, Arqueologia, Historia Antiga, Filologia Grega y Filologia Latina da Universidade de Alicante. Licenciado em Geografia e História na mesma instituição. Publicou diversos artigos sobre sua especialidade, a religião antiga e a interação cultural na época romana, entre seus artigos fez estudos sobre diferentes temas como: a estrutura dos panteões religiosos indígenas na Hispânia romana, as características das divindades paleo-hispânicas, a romanização, as migrações e a difusão territorial dos cultos e a relação entre as crenças religiosos e as identidades coletivas durante o Império Romano.

Os Deuses Celtas do Ocidente e o Panteão Hispânico

[….] A primeira parte deste trabalho, o objetivo tem sido o de obter a composição do panteão religioso indígena da área céltica hispânica a partir da quantificação dos nomes das divindades confiáveis, a verificação da procedência das inscrições e sua extensão sobre um mapa que nos permitiria observar a coincidência ou complementariedade dos territórios de culto das distintas divindades […]

Ao norte dos Pirineus, os povos célticos da Europa centro-ocidental deixaram também testemunhos das divindades adoradas que, em alguns casos, eram as mesmas que as veneradas na Península Ibérica. Nas províncias da Gália, Germânia e Britânia os restos materiais destes cultos são, também, muito mais numerosos e variados do que na Hispania, incluem textos de autores antigos, epígrafes e variadas estatuas e relevos de grande riqueza iconográfica […] todas estas razões tornam aconselhável estabelecer pontos de comparação entre a religião hispânica e aquela das regiões célticas do resto da Europa com o fim de averiguar se seguem padrões […]

Não existe, paradoxalmente, consenso sobre determinadas questões fundamentais: Existe um panteão céltico comum a todo o território que abarca esta cultura? Se trata de grandes deuses de ampla difusão ou, pelo contrário, de um grande número de divindades locais diferentes?

César foi o primeiro que tentou definir as características do panteão e dos deuses da Gália. Para ele, existiam grandes semelhanças entre estas divindades autóctones e as de Roma, posto que seu esquema partia da identificação de cada um dos deuses da Gália com seu correspondente romano: “o deus mais cultuado é Mercúrio; deste deus são as imagens mais abundantes, aquele que consideram como inventor de todas as artes, este é para eles o guia de rotas e caminhos, o que consideram que tem o maior poder para ganhar dinheiro e proteger o comércio. Depois deste adoram a Apolo, Marte, Júpiter e Minerva. Sobre estes deuses eles tem quase o mesmo parecer que os demais povos: que Apolo cura as enfermidades; que Minerva começa os trabalhos manuais; que Júpiter é o soberano dos deuses e que Marte preside as guerras…” Mais adiante o ditador faz algumas ultimas precisões sobre o mesmo tema: “Todos os gauleses dizem ser descendentes de Dispater e afirmam que isto lhes foi transmitido pelos druidas”.

Para César, portanto, as divindades principais do panteão gaulês eram cinco masculinas e uma feminina. Suas características eram suficientemente parecidas com as dos deuses romanos […]

4-napoli-museum-bust Imagem do busto de Júlio César presente no Archaeological National Museum, Napoli.

Segundo Lambrechts o grande epíteto de deuses conhecidos que variavam de tribo para tribo não impede que estes possam ser aludidos a grandes divindades comuns a todos povos. Para ele, estes epítetos tópicos são comuns a todos os povos e épocas, porque se tratam somente de adaptações locais de uma cosmogonia e teologia estruturada e perfilada pelos druidas. A grande quantidade de representações esculpidas de um mesmo tipo de divindade descoberta por todo ocidente europeu seria uma clara demonstração de que, apesar da variedade de denominações, existiam divindades adoradas simultaneamente por várias tribos.

Agora, quanto ao tipo de divindades que compunham o panteão, Lambrechts estabeleceu que os celtas anteriores a conquista romana havia conhecido uma divindade ou tríade divina com múltiplos atributos de caráter geral que, após o contato com o politeísmo romano, seria dividida em diversas divindades com uma funcionalidade mais concreta e definida. Deste modo, após a conquista romana, tal divindade havia sido confundida com diferentes divindades romanas, por não existir uma que por si só fora capaz de substitui-la. Isso explicaria, por exemplo, o que para Lambrechts são confusões entre Marte e Mercúrio galo-romanos, ou a identificação entre Júpiter e Disparter locais […]

Hatt tem sido o investigador que, até o momento, mais abordou as ideias de Lambrechts, afirmando a existência de divindades plurifuncionais de contornos pouco definidos na época anterior a conquista romana da Gália. Sua tese: para encontrar uma solução as confusões iconográficas e epigráficas entre os deuses da época galo-romana ele procurou a causa no período pré-romano. A novidade e a diferença desde autor com relação aos anteriores é que Hatt não pensava que os celtas adoravam um único deus masculino na época imediatamente anterior a conquista romana, mas sim no período pré-céltico, em torno de fins da idade do bronze (1000-800 a.C.).

Neste momento existiam, segundo ele, duas divindades de caracteres plurifuncionais. Já no período de La Téne, os deuses propriamente célticos haviam entrado em contato com estas duas grandes divindades pré-célticas, gerando um primeiro nível de “contaminação” e posteriormente, os deuses romanos haviam se sobreposto a todos eles gerando uma “estratigrafia religiosa”.

Os autores que pensavam existir um grande número de divindades gaulesas de caráter local se apoiavam em primeiro lugar no seguinte ponto de partida: os celtas haviam se caracterizado sempre por ter uma estrutura sócio-política altamente descentralizada, onde cada tribo, incluindo cada núcleo populacional, podia funcionar como uma unidade política. Este tipo de sociedade havia gerado uma religião e divindades também autônomas e diferentes segundo a região.

Map-of-Roman-Gaul Mapa das diferentes Províncias da Gália bem como o nome de diversas tribos pertencentes as mesmas.

Em segundo lugar, estes investigadores partiam das teses de Reinach, que afirmava que os deuses citados por Lucano., Teutates, Esus e Taranis, não eram grandes deidades pan-célticas, mas sim divindades locais ou regionais de pouca importância adoradas por certos povos que habitavam o Sena e o Loire.

Vendryes, um dos mais claros defensores desta abordagem afirmava a existência de divindades próprias de uma tribo que seriam o símbolo de sua unidade, porém também considerava que várias tribos podiam reconhecer a proteção de um mesmo deus […]

Recentemente houve algumas contribuições que podem também enfatizar o grande número de divindades locais cujo nome só é conhecido por um testemunho. Para Webster apesar da existência de divindades estendidas por um amplo território ou de caráter regional, a grande maioria dos deuses e deusas conhecidos estavam vinculadas a lugares concretos.

Sjoestedt negava, a princípio, a existência de uma origem comum a religião no âmbito céltico e, igualmente, rechaçava que em todo o território que abarcava esta cultura se podia falar de uma única mitologia […]

Porém esta autora reconhecia a existência de alguns elementos religiosos comuns como por exemplo o culto a Lug na Irlanda, Gales e nas províncias romanas gaulesas e hispânicas, e o que é mais importante e destacável, via uma unidade estrutural da religião celta forjada pelos druidas […] Para Sjoestedt, portanto, não existia um panteão religioso idêntico e comum a todos os celtas, mas a estrutura deste era, em certa medida, equivalente em todo seu território.

Jullian, que inicialmente defendia que as confusões entre determinados deuses galo-romanos ocorriam por causa da existência de um deus pré-romano plurifuncional, se inclinou para uma visão de religião céltica como composta de grandes divindades amplamente adoradas que compartilham o culto com outras divindades de caráter privado e localizado. Para este autor a unidade religiosa foi a princípio proposta pelos druidas, que haviam se erigido os conservadores da tradição. Porém, conforme cada tribo desenvolveu sua vida em uma determinada área geográfica e em contato com populações diferentes a evolução da religião tomaria caminhos divergentes em relação a outras tribos. Portanto, junto aos grandes deuses da teologia oficial, coexistiam divindades locais ou regionais de diversos tipos e também entidades religiosas menores de caráter privado ou familiar […]

Hubert via também no sacerdócio druídico o fundamento de uma certa unidade do panteão céltico, embora esta unidade não era patente. Para ele a causa do caráter comum das divindades celtas estava na diversidade das fontes de informação e que o desenvolvimento dos distintos povos célticos não era, em todas as partes, simultâneo. Porém Hubert detectava elementos de uma identidade profunda no panteão de cada um deles, um antigo fundo de cultos e de mitos comuns conservados desigualmente.

As teses de De Vries consideravam que existia um panteão comum a todos os povos célticos. Neste sentido criticava as posições de Lambrechts […] De Vries a partir dos textos mitológicos insulares estabelecia que todos povos celtas adoravam um certo número de grandes divindades funcionais que se correspondiam de modo bastante aproximado com os deuses tal como foram interpretados na época galo-romana […]

Duval, que se ocupou durante muitos anos nos estudos das divindades galo-romanas, também se alinhou entre os autores que viam um equilíbrio entre grandes divindades comuns a diferentes tribos e outras de alcance local. Segundo ele, o particularismo gaulês havia gerado a existência de um bom número de divindades locais já desde o período anterior a conquista romana, mas isso não significava que não existia naquele período grandes deuses adorados em grandes regiões. Para ele, em afinidade com as ideias de Jullian, ocorreu um processo de dupla direção: uma concentração de deuses tópicos que haviam se fundido com divindades gaulesas principais […] Finalmente houve contato com os deuses romanos e como consequência os fenômenos de fusão, coexistência, justaposição, assimilação ou associação […]

8941b57025d8d403d0b01221a904f9ce Uma estátua Galo-Romana de Minerva, datada do primeiro/segundo século depois de Cristo.

Para Ross, em uma língua argumentativa paralela as de Sjoestedt, Jullian ou Duval, apesar das centenas de nomes de divindades conhecidas pela epigrafia e pelas fontes literárias, existia um número limitado de tipos de divindades que haviam sido adoradas em uma ampla região, independentemente de seus nomes serem diferentes segundo a região. Para esta autora embora este panteão não estivesse rigidamente delimitado do ponto de vista funcional, existiam aspectos que, de algum modo, correspondiam a uma divindade concreta.

Mac Cana criticou também as posições “localistas”, afirmando que este aspecto da religião celta havia sido excessivamente exagerado obscurecendo a estrutura essencial da mesma. Em primeiro lugar, incidia que os múltiplos nomes de divindades conhecidas não implicavam necessariamente uma multiplicidade de deuses, como havia levantado Ross, visto que algumas mesmas divindades podiam ser conhecidas por região com diferentes denominações. Por outro lado, o destacamento local de muitos destes deuses tão pouco devia indicar a carência de entidades de ampla difusão e significação […]

A visão de Green se situa igual entre as teses contrapostas de Lambrechts e Vendryes. Por um lado, tendo em conta que em torno de 400 nomes de deuses conhecidos na época romano-celta aproximadamente 300 são constatados somente em uma ocasião, apontando o forte localismo da religião; porém, considerava a grande extensão de resultados de determinados tipos iconográficos de deuses como uma demonstração da existência de determinados caracteres semelhantes do panteão religioso em todo o território céltico […]

Um autor muito influenciado pelas teorias dumezilianas sobre a existência de um panteão semelhante em diferentes povos indo-europeus é Brunaux. Segundo este investigador, os dados conhecidos indicam que as divindades célticas estavam organizadas em um sistema funcional coerente, o que atribui grande validez ao esquema oferecido por César. Contudo, para ele, podem ser estabelecidos grupos de divindades: o primeiro engloba um conjunto de deuses com um caráter indo-europeu muito marcado, com perfis similares ao das civilizações vizinhas, como a romana, a germânica ou a escandinava e com funções específicas; o segundo grupo compreenderia entidades menos individualizadas e com funções menos precisas que podem ser remontadas desde a época neolítica. As divindades do primeiro grupo abarcariam o todo dos povos celtas.

svcellvs Estátua daquele que é apontado por diversos estudiosos como o Dis Pater gaulês, conhecido como Sucellus.

Cunliffe tão pouco se deixou impressionar pelo grande número de nomes de divindades célticas conhecidas, visto que contrapunha a abordagem de Ross e Mac Cana de que uma mesma divindade poderia ser conhecida por diversos nomes ou epítetos em diferentes territórios. Assim, em sintonia com as teses de vários dos autores citados, o investigador inglês considerava que o caótico panorama que ofereciam as listas de nomes de divindades célticos poderia ser reduzido a um esquema mais compreensível. Para Cunliffe, embora o resumo de César sobre a religião gaulesa seja uma simplificação que tentava transmitir o essencial dos deuses celtas ao seu público romano, o certo é que oferecia um esquema de grande utilidade.

Em resumo, o que se percebe dos apontamentos historiográficos expostos é um abandono, por parte da maioria dos investigadores, das duas tendências mais extremas. A primeira delas, defendida por Lambrechts e, de forma distinta, por Hatt partia principalmente da análise dos testemunhos iconográficos do âmbito galo-romano. As confusões e coincidências de símbolos e atributos entre as representações de esculturas de vários deuses romanos e autóctones levaram estes autores a opinião de que esse fato só poderia derivar da existência anterior de uma única divindade celta plurifuncional e pouco definida. Preferiram esta solução a consideração de que a maior indefinição funcional dos deuses celtas em relação aos deuses romanos poderia, por si só, ter provocado tais confusões iconográficas. A segunda tendência, localista, partia preferencialmente dos testemunhos epigráficos, sem equilibrar esta informação com a maior homogeneidade que emerge das representações das esculturas.

Entre estas duas posições a maior parte dos investigadores, sobretudo nas últimas décadas, se inclinam a pensar que existiu em todo território céltico anterior e posteriormente a conquista romana deuses locais, regionais ou vinculados a tribos e finalmente de difusão supra regional […] Em geral estes autores estabelecem uma valorização positiva do resumo feito por César das principais divindades gaulesas, considerando que pode ser um esquema útil e essencial ao panteão religioso. Em segundo lugar, partem da abordagem metodológica que considerava que nome de divindades diferentes não implicam necessariamente deuses distintos, sendo que podem referir-se a um mesmo tipo de divindade; este ponto de partida se relaciona a existência de um pequeno conjunto de tipos divinos perfeitamente definido do ponto de vista iconográfico, presente tanto nas províncias da Gália como nas Germânia e na Britânia.

Vemos, portanto, que as hipóteses que tem a mais ampla aceitação sobre o caráter do panteão céltico da Europa ocidental se encaixam com as conclusões obtidas a partir do estudo dos dados hispânicos: também na península Ibérica aparecem algumas divindades locais que eram adoradas junto a um grupo bastante definido de deuses de ampla difusão.

Referência: PEDREÑO, Juan Carlos Olivares. Los Dioses de La Hispania Céltica. Real Academia de la Historia, Universidad de Alicante. Madrid, 2002. Pags. 143 – 150.

Referências dos Autores e investigadores citados no texto:

Lambrechts, P.; Contributions à l´étude des divinités celtiques. Brugge, 1942.

HATT, J. J. Mythes et dieux de la Gaule 1. Les grandes divinités masculines. París, 1989.

Vendryes, J.; La religion des Celtes. París, 1948.

Sjoestedt, M.L.; Gods and Heroes of the Celts. London, 1949 (1ª edición: Dieux et Heros des Celtes. París, 1940)

Jullian, C.; “Remarques sur la plus ancienne religion gauloise”, REA 4, 1902, pp. 101-114.

Jullian, C. Histoire de la Gaule, vol. II. París, 1909.

Hubert, H.; Los Celtas y la Civilización Céltica. Madrid, 1988 (1ª edición: 1932).

De Vries, J.; La Religion des Celtes. París, 1963.

DUVAL, P. M. Les dieux de la Gaule. París, 1976.

ROSS, A. The pagan Celts. London, 1986 (1ª edición, 1970).

Mac Cana, P.; Celtic mythology. Feltham, 1983 (1ªedición, 1968).

GREEN, M. J. The gods of the Celts. Gloucester, 1986.

Brunaux, J.L.; Les Gaulois. Sanctuaires et rites. París, 1986.

Cunliffe, B.; The ancient Celts. Oxford, 1997.

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Fragmentos Traduzidos #7 – O Uso do Ferro

Tradução, livre e não integral, de um trecho do livro Tows, Villages and Countryside of Celtic Europe.

Autores:

Olivier Büchsenschütz é um renomado arqueólogo francês, Diretor emérito de pesquisa na Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS), especialista em habitat na Idade do Ferro, construção de arquiteturas, organização dos habitats da idade do ferro, economia proto-histórica e ferramentas agrícolas proto-históricas.

Françoise Audouze é uma arqueóloga francesa, também é Diretora emérita de pesquisa na Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS), sua área de pesquisa envolve a pesquisa acerca de ornamentos da Idade do Bronze e o habitat proto-histórico, bem como da Idade do Ferro, possui estudos também acerca da organização espacial das habitações, ela também aborda questões de gêneros através da repartição por sexo das atividades.

[…] a importância da transição para o uso do ferro está mais ligada a adoção de um alto nível de tecnologia do que com a introdução de um novo metal. Este levou cinco séculos […] A produção de ferro desenvolveu-se inicialmente nas regiões onde havia grande estabelecimentos de trabalho com o bronze […] A proliferação de pequenas forjas e o generalizado uso de ferro em ferramentas e para fins de construções provocou mudanças na tecnologia e na organização da produção do período intermediário de La Téne.

Diferente dos minérios usados para fazer bronze, os minérios de ferro eram encontrados quase que por toda a Europa […] Os forjadores de ferro Bretões e da atual Holanda já sabiam como usar os minérios depositados em pântanos […]

[…] As sucessivas fases do desenvolvimento da metalurgia do ferro tem sido claramente definidas na Europa central. Três fases podem ser identificadas: a primeira, produtos finalizados eram importados e o novo metal era usado essencialmente para decorar artefatos de bronze. Na segunda fase artefatos de ferro eram forjados localmente a partir de lingotes importados. E somente na terceira fase que o minério de ferro era extraído e fundido localmente […]

Os primeiros objetos de ferro apareceram na França durante o século oito a.C. Eram pequenos objetos, tais como peças de furar (especialmente couro) e pontas de flecha, embora o Lago Annecy tenha produzido um lingote e diversos túmulos contenham espadas de ferro com cabos e facas de bronze […] Fornalhas de ferro aparecem lado a lado das fornalhas de bronze no sétimo século a.C. […]

ac1b75c5af39 [Figura 1]

A produção de ferro floresceu no oeste europeu no início do período de Lá Téne […] Muitos autores apontam para distribuições sobrepostas de túmulos principescos desse período e daquelas áreas mais ricas em minérios de ferro na região do médio Reno e em Lorraine. Infelizmente nenhuma mina deste período é conhecida, e a maioria das habitações que foram parcialmente escavados não deixaram vestígios inequívocos de trabalho com ferro […] O uso do ferro se propagou muito amplamente por toda a Europa céltica durante o período médio de La Téne. Este começou a ser usado em pregos nas construções domésticas bem como em ferramentas comuns. César nota, por exemplo, que as ancoras dos navios dos Vênetos eram presas com correntes de ferro, enquanto que naquele momento os romanos ainda usavam cordas. O hábito do uso do ferro atingiu seu ápice quando, provavelmente no início do primeiro século antes de cristo, construtores de baluartes começaram a prender os feixes das estruturas de madeira com grandes pregos de ferro. Ferreiros faziam ferramentas que, como mencionado antes, eram especializados no trabalho com madeira, chifre e osso […] A abundancia do metal que caracterizou o fim da Idade do Ferro bem como o período Galo-Romano contrasta com a primeira Idade Média, onde ferramentas de ferro se tornaram muito mais escassas.

Evidências de trabalho com o metal tornaram-se cada vez mais difundidas ao longo do período de Lá Téne. A fazenda de Gussage All Saints (Dorset) produziu evidências de uma oficina de bronze, com resquícios de muitos moldes para fundição de artefatos de bronze […]

Durante o período de Lá Téne grandes centros de produção se desenvolveram, tais como Steinsburg na Turíngia, as Holy Cross Mountains no sul da Polônia ou o depósito de Biskupice. Em Biskupice a produção de ferro representava uma parte excepcionalmente importante nas atividades da comunidade. No mesmo período, as grandes vilas do segundo século a.C., assim como a maioria dos oppida, tinham forjas onde lingotes de ferro eram trabalhados nos casos em que o minério não era fundido no local. Escavações infelizmente nem sempre foram vastas o bastante para permitir a identificação de oficinas ou locais nas vilas reservados para esta atividade.

O exemplo polonês mostra que várias situações eram possíveis: nas Holy Cross Mountains as linhas das fornalhas que estavam dispostas e adicionadas no início do primeiro século a.C. demonstram tanto a rigorosa organização do trabalho como a intensificação da produção. Contudo, estes locais de trabalho, aparentemente localizados a alguma distância das habitações, podiam corresponder com trabalho sazonal.

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[Figura 2]

Se a principal inclinação no desenvolvimento da exploração de matéria prima durante as idades do bronze e do ferro precisam ser resumidas, o seguinte esquema pode ser proposto. A Europa temperada começou com a troca de matéria prima. Esta era estimulada pela crescente demanda por parte dos povos do Mediterrâneo. Primeiro isto estava restrito a bens de alto valor que eram facilmente transportados; então a exportação de minérios em massa obrigou a organização de rotas de comércio e o transporte que estava tanto regularmente disponível como melhor equipado […] Até a metade do primeiro milênio a.C. estas oficinas deixaram poucos traços nas habitações; eles não mudaram significativamente a sociedade camponesa. Da metade do período de Lá Téne, contudo, artesãos começaram a se especializar e crescer em números. Concentrações industriais surgiram e a produção se diversificou. Escavações sugere grande diversidade, e a existência lado a lado dos artesãos nas vilas, as oficinas exportavam seus produtos por um raio de algumas centenas de quilômetros, e grandes centros de produção localizados nos principais locais de mineração e participação no comércio em um nível internacional.

Referência textual: Buchsenschutz, Olivier; Audouze, Fronçoise. Tows, Villages and Countryside of Celtic Europe. London, 1991. Pags: 169-170.

Legenda:

Figura 1: Ferramentas metalúrgicas encontradas em Nikolausberg, Austria, datando do século quarto/terceiro antes de Cristo.

Figura 2: Ferramentas cirúrgicas encontradas no túmulo arqueológico denominado Druid of  Colchester, proxímo de Colchester na Inglaterra.

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Transcrições #1 – Vikings e Irlandeses

Transcrição de um trecho do livro Os Vikings, de autoria de Holger Arbman, publicado pela editora portuguesa Verbo em 1971. O trecho em questão descreve, de forma sucinta porém bem descrita, o inicio da chegada dos vikings no território irlandês e como se deram a relação entre estes dois povos ao longo do período do século IX ao XI. Apesar de datado, a versão oficial em inglês fora lançada em 1968, ainda sim o texto descreve de forma clara e elucidativa o conturbado período em questão.

Autoria: Holger Arbman – foi um arqueólogo e historiador sueco especialista no período viking, obteve seu doutora em 1937 pela Universidade de Uppsala com uma tese que tratava da relação entre os suecos e os povos francos na era viking, mais tarde se tornou professor na Universidade de Lund, cargo que ocupou até sua morte em 1968.

Os vikings chegaram em primeiro lugar á Irlanda, numa expedição que incidiu sobre Lamby (ao norte de Dublin), no ano de 795. À Irlanda que escapara à administração romana, preservou a estrutura social céltica, baseada nos clãs, formando um conjunto de pequenos reinos, que no começo do século IX, quando os vikings lá apareceram, estavam agrupados sob o mando de dois reis – um grupo no Sudoeste e outro no Nordeste, este ultimo sob o domínio dos famosos reis de Tara.

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Figura 1 – Mapa indicando os reinos irlandeses e as principais áreas de domínio e de influência nórdica no ano de 950

A igreja, introduzida ali no século V por São Patrício, também diferia da igreja no continente, pela sua forte tradição eremítica e pelo desenvolvimento do ensino, formando escolas quase universitárias nos mosteiros. Foi a riqueza destes mosteiros que atraiu as atenções dos incursores. Os Anais de Ulster dizem em 820: “O oceano lançava torrentes de estrangeiros sobre Erin, de tal sorte que não havia um porto ou ancoradouro, um forte ou ponto estratégico que não estivesse rodeado de esquadras de escandinavos e piratas.” No ano 836, duas esquadras, de sessenta barcos cada uma, vieram pelo Boyne e pelo Liffey acima e arrasaram Meath. No mesmo ano fixou-se a primeira colônia viking em Dublin, que em 841 foi fortificada em toda a sua extensão, assim como outros locais: Narrow Water (perto de Carlingford), Linn Duachail, Louth e Linn Rio.

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Figura 2 – Imagem ilustrando uma incursão em um mosteiro

Turgeis (Thorgils), o primeiro senhor dos mares, chegou em 839, e foi “rei de todos os estrangeiros em Erin” até a sua prisão e execução por afogamento, em 845. Mal pode dizer-se que tenha havido formalmente um rei nórdico nesta época, apesar de ter lançado uma espécie de danegelde (imposto dinamarquês). Nomeou-se a si próprio abade Armagh e sua mulher cantou versos pagãos no altar-mor da catedral. A Cronica acusa-o de ter tentado converter toda a ilha ao culto de Thor, mas não há confirmação disto. A sua morte foi seguida de um levantamento contra os vikings, que na derrota sofreram, segundo as crónicas irlandesas, umas 12 000 baixas. Este número é o total das perdas havidas nas derrotas de Haakon em 847, de Tomkrair e do chefe pagão de Derry, cujo nome não é indicado. Embora o número mencionado pelas crônicas seja evidentemente exagerado, o que é indiscutível é que os vikings atravessaram um período muito difícil e se não fosse a desunião que reinada entre os Irlandeses, a Irlanda talvez tivesse ficado liberta do seu jugo. No ano 850 os “Estrangeiros Negros”, vikings dinamarqueses, chegaram e arrasaram Dublin. No ano seguinte tomaram a fortificação nórdica de Carlingford. Segundo as crônicas, na Batalha de Carlingford, entre dinamarqueses e noruegueses, morreram 5000 noruegueses de escol. Os dinamarqueses, triunfantes, cumpriram a promessa feita em campo de batalha aos mensageiros dos reis irlandeses, entregando uma grande caixa com ouro e prata a S. Patrício, pois os dinamarqueses mostravam pelo menos uma certa piedade; “por piedade eram capazes de se abster, por algum tempo, de comer e beber”.

Os diferentes vikings da Irlanda uniram-se no ano 853 sob a autoridade de Amlaibh (Olafr Huiti), de quem se diz ter chegado, como Turgeis, “numa armada real” e que trazia instruções de seu pai, o rei noruegues, sobre os impostos a lançar. Devem ter sido deliberadamente enviados reforços da mãe-pátria para fazer face a uma situação perigosa. Olavo deixou Dublin para regressar á Noruega, depois de ter reinado 18 anos na Irlanda, sucedendo-lhe seu irmão Ivar. A ocupação foi então feita numa base formal de colonização: os reis irlandeses mantinham as suas posições, alguns cooperando com os governantes vikings (e havendo até casamentos entre as famílias) e outros opondo-se-lhes. Dos primeiros resultaram os gall-gaidil ou “irlandeses estrangeiros”, que tinham renegado a sua antiga fé e se tornaram filhos adotivos dos vikings, cuja maneira de viver aceitaram. O seu chefe, Caitilt-Finn (Ketil Hviti), era um noruegues.

No período compreendido entre os anos de 865 e 870, Olavo organizou três expedições à Escócia e, depois da morte de Ivar, em 874, é designado pelos Anais de Ulster por “rex Nordmannorum totius Hiberniae et Britanniae”, daonde talvez possamos depreender que os norguegueses já tinham estabelecido uma testa de ponte no Noroeste da Inglaterra. No ano seguinte, Halfdan, na Nortúmbria, enviou uma força contra a Irlanda “porque Ivar tinha invadido a Nortúmbria”. O meio século seguinte foi abundante em disputadas entre os dois reinos vikings, de Dublin e de Iorque. Sigtrygg, filho de Ivar, invadiu a Inglaterra em 892, mas regressou à Irlanda em 894 e no ano seguinte foi assassinado por um dos seus próprios partidários. Outra vez a morte do chefe deu lugar a uma sublevação dos nativos. Em 901, os irlandeses retomaram Dublin e os vikings bateram em retirada para a Ilha de Man e para a Escócia e, durante 12 anos, a Irlana gozou de relativa tranquilidade, sob a chefia de Caerbhall.

Os vikings voltaram em 913, recuperando toda a Irlanda, numa campanha de quatro anos, e o seu ímpeto não mais abrandou até o ano de 980. Os seus dois grandes reis deste período foram Gudrod (rex crudelissimus Normannorum até 934) e o célebre Olavo Kvaran (possivelmente Havelok, o dinamarquês). Este era do reino da Nortúmbria, filho de Sigtrygg Gali, que se tornou seu governante em 921 e combateu em Brunanburgh, em 937. De 941 a 944 e de 949 a 952 Olavo também governou Iorque. Casou com uma filha do rei de Leinster e estava aparentado, através de uma prima, com Maelsechlainn, rei de Meath. A sua queda foi originada pelo fato de se ter metido na contenda entre estes dois reis. Em 980 foi derrotado em Tara e morto o seu filho Ragnvald. Tres dias depois, Dublin estava em chamas. Olavo recolheu ao mosteiro de Iona, fazendo-se monge, tendo morrido um ano mais tarde. A sua queda não libertou a Irlanda do jugo dos vikings e, nove anos depois, o filho de Olavo, Sigtrygg Silkybeard, tornou-se rei em Dublin e tomou parte (do lado oposto ao que o seu pai defendera) na luta entre Meath e Leinster. Foi derrotado por Brian Boru, rei de Munster, no ano 1000 e, pela primeira vez, em 1002, toda a Irlanda ficou unida sob o poder de um rei irlandes, Brian. Este mostrou-se um bom administrador e sob o seu reinado houve paz durante 10 anos, o que é muito tempo, numa Irlanda em constantes lutas. Foi um fervoroso estimulador da cultura do espírito, tendo destinado um terço dos seus rendimentos de Gales e da Escócia para o desenvolvimento das artes e do ensino. Os pesados impostos que lançara (particularmente sob o gado) provocaram a revolta de Leinster, o que deu uma oportunidade às tropas da Escócia, de Gales, da Flanders, da Normandia e às de Sigurd Digri, vindo de Orkney. Na grande vitória irlandesa, em Clontarf, na sexta-feira santa do ano 1014, Brian morreu juntamente com seu irmãos, filho e neto, assim como Sigurd. Mas Sigtrygg Silkybeard seguiu a batalha do seu refúgio em Dublin e voltou a reinar por mais vinte anos, em que as peregrinações cristãs se intermeavam com as expedições guerreiras. É errado ver-se em Clontarf um levantamento nacionalista da Irlanda contra os invadores. A batalha tornou-se célebre por teram perecido nela dois grandes homens como Brian e Sigurd. Na saga Njals há uma referencia a esta batalha, nas estrofes:

Eu estava lá quando os guerreiros combatiam.

Retiniam as espadas na costa irlandesa,

Os ferros dobravam quando os escudos aparavam

As pontas das lanças dos inimigos bem armados.

Muitos mais golpes de espadas eu ouvi

Sigurd caiu no fragor da batalha

Das suas feridas jorrava o sangue quante

Brian também caiu, mas ganhou, por fim.

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Figura 3 – Imagem ilustrando Brian Boru

As fontes escritas estão cheias de referencias a batalhas, a grandes exércitos, a impostos, mas nada acrescentam sobre Dublin, como centro nórdico da Irlanda. Não há uma alusão a qualquer espécie de colonização como a que se processava em redor, na Inglaterra ou nas ilhas atlânticas, e a falta de topônimos de origem escandinava também nada acrescenta. A natureza especial das pequenas forças que guarneciam Dublin e outros locais, e o fato de se terem convertido cedo ao cristianismo, talvez nos deem uma explicação da raridade com que se encontram sepulturas vikings na Irlanda. Só se conhece uma grande necrópole no local do Kilmainham Hospital, em Dublin. Dela são provenientes umas quarenta espadas, a maior parte do século IX, e algumas ricamente ornamentadas. Encontraram-se ali também trinta e cinco lanças e trinta copas de escudos, mas as sepulturas de mulheres são ao todo seis, todas do século IX, sendo uma delas do começo desse século e as outras mais recentes, o que leva a crer que, no inicio do seu estabelecimento, os vikings traziam consigo mulheres.

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Figura 4 – Foto de algumas das espadas vikings encontradas em Kilmainham

Noutros pontos da Irlanda, os achados são raros, conhecendo-se apenas três inscrições rúnicas, todas elas mostrando uma mistura de elementos irlandeses com elementos nórdicos. Uma destas inscrições esta feita sobre o cinto de uma espada, de Greenmount, e diz “Esta espada pertence á Cabeça de Dufnall Seal”; e a outra, gravada na parte de uma cruz de pedra da catedral, em Killaloe, “Throgrim eregiu esta cruz”, e mais abaixo um alfabeto ogam “Beandac(h)t (ar) Thorgr(im)” (uma benção para Thorgrim). A terceira inscrição, com os dizeres “Lir erigiu esta pedra; M… gravou (as) rúnicas”, foi encontrada numa pedra levantada como monumento e mais tarde empregada na construção de uma casa, como couceira de uma das portas, na ilha de Beginish, distrito de Kerry. As três datam do século XI e mostram como irlandeses e nórdicos estavam misturados nessa época. O material arqueológico confirma a opinião expressa em algumas fontes escritas, muitas vezes dúbias, de que os nórdicos tomaram a Irlanda como uma fortaleza-base para outras operações de guerra, sem nunca terem tentado colonizá-la, e daí as referências narrativas sobre as espoliações constantes que exerceram sobre a sua população. Se ali tivesse existido uma população nórdica, estas espoliações não teriam sido, certamente, tão frequentes.

Referência textual: ARBMAN, Holger. Os Vikings. Lisboa: Verbo, 1971. Pags: 74-80.

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Fragmentos Traduzidos #6 – Druidas, Vates e Bardos

Tradução, livre e não integral, de um trecho do texto Ritual and the Druids, presente no livro Celtic World (Ed. Miranda Green), sob autoria de Anne Ross.

Autora: Anne Ross – foi uma arqueóloga, a princípio pesquisadora sênior na Escola de Estudos Escoceses na Universidade de Edimburgo, e bolsista em pesquisa no Departamento de Arqueologia na Universidade de Southampton, sua área de pesquisa principal girava em torna dos aspectos da religião celta, faleceu em 2012.

Os autores clássicos descrevem uma tripla ordem de sábios entre os Gauleses. O principal entre estes eram os druidas, cujo período de treinamento terminava por volta de vinte anos. Eles eram sacerdotes, sozinhos sabiam da vontade dos deuses, com quem se comunicavam diretamente. Eles também eram conhecidos como filósofos, seus conhecimentos especializados incluíam astrologia e astronomia, medicina, magia, também eram legisladores e possuíam habilidades como professores e historiadores. Próximo destes estão os ovates, cuja disciplina levava até doze anos para ser dominada. Eles também eram reconhecidos pelos seus dons como profetas, desempenhavam um papel sacerdotal nos sacrifícios […] eram mestres da poesia […] A palavra gaulesa vátis está relacionada com a latina vatis […]

Sem título99 [Figura 1]

Os bardos, a mais estável das três ordens, tinha seus próprios dons e status. Seu período de treinamento era de sete anos. Uma das suas mais importantes funções eram a composição de “poesia de elogio”, as quais traziam grandes benefícios para seus patronos e também para as pessoas em geral. Eles também tinham o temido poder da sátira, que poderia causar deformidades físicas, má sorte ou até mesmo a morte da pessoa contra quem a mesma era entoada […]

Desse modo as três ordens de homens celtas de erudição compartilhavam, em graus variantes, os poderes de profecia, magia e religião. É digno de nota que estas três ordens de aprendizado aparecem no contexto da Irlanda Antiga, do início da Idade Média, tendo os mesmos, ou similares, nomes e funções. O druida, em irlandês druí, tinha os mesmos poderes que o seu equivalente gaulês. O vátis da Gália tinha como seu equivalente o irlandês fili, o qual originalmente conotava um vidente, adivinho e, mais tarde, poeta esotérico. Outro termo que era um cognato exato de vátis era fáith, significando vidente, profeta. As palavras em galês para as três ordens eram dryw ou derwydd, para “druida”; gweledydd, “profeta”, “vidente”, “poeta”, para bardo. O equivalente galês mais próximo da palavra vátis era gwawdawr, “poeta”.

O bardo irlandês (em galês bardd) tinha funções semelhantes ao seu correspondente gaulês. Diferente dos bardos de Gales, cujos status como poetas aprendizes parecia crescer, os bardos irlandeses foram substituídos como “poetas de elogio” pelos filidh, e passaram a ser considerados como meros contadores de histórias, animadores e versejadores.

pd2501757 [Figura 2]

[…] César relata que todos os druidas se reuniam em uma assembleia numa certa época do ano no território dos Carnutes, que era considerado o centro de toda a Gália. Os druidas da Irlanda […] costumavam se reunir em Uisnech, na atual County Westmeath. A assembleia de Uisnech, local que era considerado como o “coração” da Irlanda, era realizada no Beltane, 1 de maio […] Todo o sistema druídico para ter sido comum a todos os Celtas […]

No País de Gales a situação era um pouco diferente. Parece ter havido um centro druídico em Anglesey (Môn), aonde os druidas foram atacados e praticamente destruídos pelas tropas de Suetonius Paulinus em 61 d.C. […] este evento histórico não necessariamente significou que os druidas perderam toda sua identidade e influência entre os povos da Britânia […] A vinda dos Romanos na Britânia foi um triunfo militar e não espiritual […] A ocupação Romana na Britânia foi, eventualmente, seguida pela imigração dos Anglo-Saxões e Jutos […] e a palavra druida não foi usada novamente na Britânia, até onde podemos dizer, até um período muito posterior. O termo drý, provavelmente do irlandês druí, e compostos como drýcraeft são empregados regularmente no sentido anglo-saxão de “mago”, feiticeiro, e usado como tradução latina de magus (Bosworth e Toller, Anglo-Saxon Dictionary).

Contudo, algum grau da influência e autoridade dos druidas deve ter sobrevivido a proibição por toda o império tanto na Britânia como na Gália. Em alguns exemplos druidas são referidos como magi em irlandês […] Os druidas entre os Pictos são também descritos como magi na obra Vita Sancti Columabe escrito por Adomnano de Iona […] Quando São Columba viajou para a região de Inverness nas terras dos Pictos, para converter os pictos pagãos à fé cristã, ele teve um encontro com Broichan, um druida hostil do rei picto pagão Brude […] Quando o rei Brude se negou a abrir os portões da fortaleza para São Columba e seus clérigos, o santo fez o sinal da cruz e os parafusos do mesmo caíram. Alarmados os druidas exortaram seu rei a não dar ouvidos ao homem de Deus, mas Columba venceu todas as oposições e o rei foi convertido a fé cristã. Columba trabalhou entre os pictos por nove anos após isto, e dominou sua língua […]

columba_skelton1 [Figura 3]

Fica claro que na conquista romana da metade sul da Britânia o druidismo oficial não poderia ser aceito […], contudo deidades nativas e seu culto eram permitidos […] temos pouco conhecimento sobre tais assuntos para determinar, apesar que o trabalho arqueológico nos templos britânico-romanos está constantemente trazendo mais evidências em relação as práticas de cultos nativas. Possivelmente o sacerdócio celta foi permitido continuar sob outro nome, um que não tivesse a conotação da palavra “druida” […]

A lenda de Vortigerno (em galês Gwrtheyrn) certamente indica que os druidas ainda estavam atuando em algumas partes da Britânia após o fim da ocupação romana. Possivelmente a primeira referência na literatura do País de Gales aos druidas ocorra no poema do século décimo Armes Prydein (“A profecia da Britânia”, do Livro de Taliesin) (Bromwich e Williams, 1972: 12-13). O poema termina com as palavras dysgogan derwydon meint a deruyd, “druidas preveem tudo que irá acontecer” […] A palavra que é cognato com druida é dryw, que também significa carriça (ou carruíra), um pássaro druídico […]

druids [Figura 4]

Em 1682 John Davies de Mallwyd defendeu o significado “carvalho” como uma tradução da primeira parte da palavra derwyd. Como o carvalho era uma árvore venerada entre os celtas, “conhecimento do carvalho” é uma alternativa válida para “grande conhecimento” para os druides gauleses e os equivalentes insulares. […] os druidas certamente tinham grande conhecimento de sua própria disciplina, e de acordo com Lucano eles recebiam seu conhecimento divinatório por meio de transe causado pelo costume de mastigar bolotas (de carvalho) […] As ações de reis no mundo celta dependia do conhecimento dos druidas sobre o futuro […]

Referência Textual: ROSS, Anne. Ritual and the Druids. In: GREEN, Miranda(Ed). The Celtic World. London: Routledge, 1995. Pags: 423-444.

Legendas das Figuras:

Figura 1 – Desenho representando um Druida

Figura 2 – Um homem com harpa diante de um Rei ou Líder, representação de um bardo.

Figura 3 – Imagem ilustrando São Columba ás portas dos Pictos.

Figura 4 – Cena representando Druidas colhendo o visco.

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Fragmentos Traduzidos #5 – Vida Cotidiana, Tempo Livre e Outras Atividades

Tradução, livre e não integral, de um trecho do texto Appearance, Life and Leisure, presente no livro Celtic World (Ed. Miranda Green).

Autora: Glenys Lloyd-Morgan. Foi uma arqueóloga de origem canadense, graduada em Arqueologia pela Universidade de Birmingham, se tornou PhD na mesma instituição, era especialista em Arqueologia Romana, seu PhD foi sobre espelhos romanos, aonde ela buscava estabelecer uma potencial relação entre estes itens romanos com um artefato predecessor céltico.

No interior das casas das famílias haviam certos itens que teriam sido usados no dia-a-dia. Se tratavam de pedras para moagem de grãos em farinha para a fabricação de pães, baldes para carregar água ou leite dos animais domésticos […] estes eram feitos de aduelas de madeira com tiras de liga de cobre, alguns lisos, outros decorados […] um caldeirão suspenso por uma corrente presa às vigas, ou por um tripé, teria sido usado no preparo de comida regularmente. A importância do caldeirão em termos práticos é testemunhada pelo número de vezes que este é mencionado nas histórias, no folclore e nas proezas lendárias dos deuses e heróis. Jarros para armazenar e guardar frutas secas, frutos e outros alimentos utilizáveis também eram comuns, embora em áreas sem existência de argila adequada para cerâmica outros materiais como madeira para travessas, tigelas e caixas, vime para cestos de armazenagem […] eram utilizados.

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Bebidas eram servidas em recipientes como pequenas tigelas, ou feitos de chifres de animais […] A exibição de recipientes exóticos importados para servir vinho ou cerveja, em festins em ocasiões formais, era, como entre os povos clássicos, um aspecto de luxuoso consumo. O gosto pelo vinho entre os Gauleses era particularmente notável, e é confirmado pela presença no sudeste da Britânia através das ânforas de vinho presentes nos túmulos do período tardio de Lá Téne.

AN00784753_001_l.jpg[Figura 2]

A cerveja era bem conhecida como bebida, e consumida por todo o período Romano, como é confirmado não somente pelos achados de cerâmicas da Britânia […] Hidromel também era produzido, embora as famílias menos abastadas dependessem mais do leite e da água.

A riqueza de qualquer família ou grupo dependia do tamanho e da conservação de seu abastecimento. O gado era particularmente importante para a produção de leite, carne, couro e ossos, todos estes poderiam ser utilizados para uma variedade de usos domésticos e semi-industriais. Porcos eram importantes para um agricultor mais humilde […] carne, ossos e couro poderiam ser usados […]

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Apesar de certa quantidade de carne animal ser produzida através da criação de animais domésticos, a caça também provia outros suprimentos para complementar a dieta com uma ampla variedade […] A caça, como no mundo medieval, incluía cavaleiros, que necessitavam de velocidade para acompanhar a caça ou para esquivar do perigoso ataque de um javali encurralado cujas presas poderiam ocasionar certo estrago nos caçadores, cavalos e cães. Outros caçadores caçavam suas presas a pé, com armadilhas […] ou colocando redes para pegar pássaros ou peixes em cursos d’agua, rios e no mar […] muitas das armas utilizadas para a caça, arco e flecha, lanças de vários tipos, estilingues, redes e todas as habilidades eram utilizados para a coleta de comida ou para garantir que grandes animais, como cervos, javalis selvagens, lobos, raposas e ursos nas regiões montanhosas, não pisassem e destruíssem plantações ou furtasse e matasse os rebanhos novos, este poderia ser um excelente treinamento para os homens mais jovens que poderiam um dia ter que mostrar sua coragem em conflitos locais ou batalhas maiores.

0219[Figura 4]

A maioria das pessoas na sociedade celta teria vivido em uma comunidade de vilas sobretudo agrícola, cultivando e criando animais, não tendo tanto contato com grandes centros políticos e religiosos exceto nos festivais ou em tempos de dificuldades […] Somente os membros mais ricos da sociedade dispunham de carruagens leves com conjuntos elaborados de ornamentos para os cavalos e outros acessórios decorativos […] Os Bretões, bem como os Gauleses, eram famosos pelo uso de carruagens que eram puxadas por dois cavalos e carregavam o guerreiro e seu cocheiro […] eles eram conhecidos também por arrancar as cabeças de seus principais inimigos e mantê-las como troféus […]

Em muitos aspectos a sociedade era estruturada com nobres, príncipes e reis liderando a tribo ou um pequeno grupo social sob seu controle […] Abaixo dos nobres, mas não menos importantes para o conjunto da sociedade, estavam os druidas com suas diversas habilidades, intermediários entre os meros mortais e os deuses, zeladores das leis e tradições, e cuja influência poderia persuadir as decisões de reis e guerreiros […]

Artesãos e artífices, especialmente os ferreiros, tinham grande honra e status, pelo seu trabalho parecer quase uma transformação mágica de pedaços de terra e rocha em ferro fundido, bronze ou metais preciosos como ouro e prata, e por consequência em armas, ferramentas e coisas de grande beleza. As habilidades dos ferreiros eram sigilosamente guardadas e mantidas dentro da família ou passada a um aprendiz de confiança que mostrasse capacidade […] Como em outros lugares no mundo antigo, onde a medicina e a verdadeira compreensão das doenças e de suas causas eram pouco entendidas […] a mortalidade infantil e mortes no parto eram comuns […] Pais tentavam criar uma grande família na esperança que alguns de seus descendentes fossem fortes o suficiente para viver até a idade adulta. Guerra e acidentes na agricultura, especialmente se sofridos pelos membros mais fortes da família, poderiam arruinar uma família onde as crianças fossem jovens demais para lidar com tarefas mais pesadas. Fracasso das colheitas devido a um clima fora do comum, infestação de pragas ou ataques de fungos também eram muito temidos […]

Referência textual: LLOYD-MORGAN, Glenys. Appearance, Life and Leisure. In: Green, Miranda (Ed.) The Celtic World. London: Routledge, 1995. Pags: 95-120.

Legenda das Imagens:

Figura 1 – Exemplo de balde com tiras em liga de cobre, encontrado em Great Chesterford , Essex.

Figura 2 – Ânforas, potes, jarros e outros objetos encontrados em um rico túmulo em Welwyn Garden City, pertencentes, provavelmente, ao último quarto do século primeiro antes de Cristo.

Figura 3 – Representação ilustrada de atividades agrícolas.

Figura 4 – Representação ilustrada de caçadores perseguindo um javali.

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Fragmentos Traduzidos #4 – As Fontes do Poder Social

Tradução, não integral, de um trecho do texto Poder, Política e Status.

Autoria: Timothy Champion

[…] A sociedade celta era baseada no status e na honra, o status estava baseado em parte ao nascimento e em parte nas conquistas individuais. Parentesco e descendência eram de vital importância, a literatura irlandesa do início do período medieval contém um vasto conjunto de genealogias designadas a celebrar a nobreza do período e legitimar sua reivindicação ao poder através de um apelo a seus importantes ancestrais do passado. O poder real era transmitido no interior de uma linhagem estreitamente definida, e os graus mais baixos da nobreza e homens livres seguiam da mesma forma uma ordem hereditária. As habilidades especiais de poetas, músicos e artesãos, bem como qualquer equipamento, também podiam ser transmitidas de uma geração para a outra na família.

O status não estava imutavelmente fixado no nascimento, contudo, e era possível elevá-lo ou diminui-lo na sociedade através de atos. Os tratados antigos do direito irlandês dão exemplos de tais mobilidades sociais. Um rei derrotado em batalha perderia o respeito de seu povo, bem como teria talvez que aceitar o domínio de seu conquistador, um nobre que age de modo impróprio ou falha em cumprir suas dívidas poderia ser punido com a escravidão. Por outro lado, um notável sucesso na agricultura ou no acumulo de riquezas poderia levar um homem livre comum a adquirir grande autoridade e até mesmo a aspirar ao status de um nobre, após três gerações seus netos poderiam alcançar o status de um nobre.

A instituição social mais importante que estruturava as relações entre os indivíduos de diferentes status na sociedade celta era o clientelismo. Este era conhecido no período pré-histórico das fontes dos autores clássicos, e mais detalhadamente das antigas leis irlandesas (Kelly 1988: 29-33), e foi provavelmente encontrado por todo mundo Celta. Esta era uma relação que abrangia obrigações sociais, militares, políticas e econômicas, e pode ser visto como situada no centro do poder da nobreza celta assim como conferia benefícios aos clientes.

Apesar de haver obrigações de ambos lados, a relação era fundamentalmente desigual. O patrono provia seus clientes com apoio jurídico, proteção política e a possibilidade de compartilhar os frutos de seu sucesso, como por exemplo nas invasões e pilhagens, ele também abastecia seus clientes com um feudo que abrangia o essencial para a agricultura, especialmente a pecuária, mas também ferramentas e equipamento. Em troca o cliente pagava ao patrono uma renda de alimentos anual baseado no tamanho da terra que era dada, fornecendo também trabalho manual, suporte político e serviço militar. O antigo direito irlandês contém detalhes de diferentes tipos de clientelismos, mas os princípios básicos das relações eram claros.

O clientelismo era fundamental para a sociedade celta, e o status de patrono era medido pelo número de clientes. Isto estrutura todos os níveis da sociedade. Um nobre poderia ser patrono de seus próprios clientes, e por sua vez cliente de um outro nobre mais poderoso, mesmo um rei poderia ser cliente de outro rei. Fornecendo uma oportunidade de sucesso econômico na agricultura sendo utilizado na ascensão da posição social, e era o mecanismo mais importante para o exercício de poder de uma pessoa sob outra.

Sem título4[Figura 1]

A importância política do clientelismo é demonstrada pelo relato de César acerca de Orgetorix e dos Helvécios, quando este foi levado ao tribunal sob acusação de assassinato, ele apareceu com 10,000 de seus familiares e seguidores e foi absolvido. (De Bello Gallico I. 2-4).

Outro importante fator de aquisição e desfrute de status social era a riqueza, e as duas principais fontes de riqueza eram os rebanhos e os tesouros. O antigo direito irlandês mantinha três métodos de enumerar o valor de qualquer coisa, no qual as unidades de valor eram respectivamente uma escrava, uma vaca e uma onça de prata. O gado era o centro da economia da Irlanda do início do período medieval (Lucas 1989) e pode ter tido uma importância semelhante na pré-história, ao menos em algumas regiões do oeste europeu.

Tesouros eram acumulados não somente para serem acumulados, mas também para serem exibidos e utilizados. Podendo estar na forma de ouro ou prata, especialmente para adornos pessoais, mas também em mais produtos utilitários de artesãos hábeis. Sucesso na agricultura e na obtenção de bens materiais vieram junto com as atividades dos festins, entretenimentos luxuosos eram um meio favorável de demonstrar e reforçar o status social. Ao longo do primeiro milênio antes de Cristo os registros arqueológicos são marcados por um tema recorrente acerca de bens de prestígio compreendendo baldes e caldeirões, copos e jarros e moveis domésticos, todos associados com o entretenimento dos convidados e de servir alimentos e bebidas.

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[Figura 2]

Referência: CHAMPION, Timothy. Power, Politics and Status. In: GREEN, Miranda (Editor). The Celtic World. London: Routledge,1995. Pags: 85-94.

Referência das referências do autor:

KELLY, F. (1988) A Guide to Early Irish Law, Dublin: Institute for Advanced Studies.

LUCAS, A. (1989) Cattle in Ancient Ireland, Kilkenny: Boethius Press.

-Legenda:

Figura 1: Um esboço destacando traços da agricultura céltica.

Figura 2: Um desenho representando uma cena de um festim gaulês.

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Crônicas Célticas #1

Crônicas Célticas serão uma série de textos curtos presentes no blog que possuem um trecho ou descrição de alguma fonte histórica de escritores que fizeram e descreveram observações pertinentes e interessantes acerca dos Povos Célticos.

#1 – Os Scordisci

“ De acordo com o relato dos autores antigos (Estrabão e Xenofonte), um grupo de emissários Celtas visitou Alexandre o Grande em 335 a.C., em algum lugar próximo ao Danúbio onde ele estava lutando contra as tribos dos Bálcãs. Após uma recepção amigável, Alexandre perguntou-lhes qual era seu maior medo, pensando que a resposta deveria ser seu próprio nome (o de Alexandre) uma vez que ele havia chegado às terras dos Celtas. Ele ficou muito desapontado quando eles responderam que eles não temiam nada que existia na terra, somente dos céus caírem sob eles. Esta anedota demonstra não somente que os Celtas eram orgulhosos e destemidos, mas também que, no momento, eles tinham se estabelecido naquela área e tinham grande interesse na situação política dos Bálcãs…”

Referência. JOVANOVIC, Borislav; POPOVIC, Petar. The Scordisci. In: MOSCATI, Sabatino. The Celts. New York: Rizzoli,1991. Pag. 337.

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Fragmentos Traduzidos #3 – O Caldeirão de Gundestrup

Tradução, não integral, do texto: O Caldeirão de Gundestrup.

Autor: Flemming Kaul

O caldeirão de Gundestrup¹ foi encontrado em um pântano em Himmerland na Jutlândia em 1891. O caldeirão de prata, que pesa quase nove quilos, estava desmontado e depositado em uma região seca do pântano […] As enigmáticas representações de deidades e cenas religiosas nas treze placas de prata fazem do caldeirão um dos mais importante trabalhos de arte da pré-história europeia, e provavelmente nenhum outro trabalho de artesanato motivou tantas publicações […]

4757716827_449d673095_z[Figura 1]

Armas e ornamentos representados no caldeirão tornam sensato assumir que o mesmo foi fabricado por volta do ano 100 a.C. Houve diversas opiniões diferentes quanto ao seu lugar de origem. Dois locais são alvo de debate: a atual França e as regiões do baixo Danúbio.

A razão para esta divergência é uma ambiguidade acerca deste: por um lado o estilo   e o trabalho é claramente Trácio, por outro lado alguns dos temas são claramente Celtas, alguns destes ocorrendo com mais frequência na Gália. Descobertas recentes de tesouros em prata Trácios e túmulos na Bulgária e Romênia tem fornecido novos materiais para comparação […] Primeiramente o caldeirão por si só é claramente do tipo Celta […] por outro lado a técnica, prata modelada em alto relevo parcialmente dourada, é típico artesanato Trácio marcadamente do quarto ao primeiro século a.C. Além disso, o modo como estão representados os pelos dos animais é Trácio na concepção […] a presença de cães e animais fantasiosos como grifos mostram uma relação de proximidade do caldeirão e a arte Trácia.

tumblr_mvxt3mx9Mk1smvdiao4_r1_1280.jpg[Figura 2]

Um padrão particular é a espiral na testa do grande touro presente na parte inferior. Apesar de espirais ou triskeles serem bem conhecidos na arte celta eles nunca estiveram presentes na testa de touros […] as evidências dos tipos de artefatos presentes no caldeirão também mostram uma certa ambiguidade. A maioria  dos torques são claramente tipos celtas encontrados com mais frequência no oeste mas também utilizados pelos celtas do leste e sudeste […] Dois torques, contudo, pertencem a um grupo raro de torques não celtas provavelmente provenientes do sul da atual Rússia na região do Mar Negro.

3225196924_e2a3b6ff40_z[Figura 3]

Os escudos representados no caldeirão são típicos escudos longos celtas, mas testemunhos da Bulgária e Romênia mostram que este tipo de escudo também era utilizado por tribos não celtas do leste.

No sudeste da Europa os “trompetes de guerra”, os Carnyx, tem sido encontrados no formato como podemos notar nas representações do caldeirão, enquanto que representações destes são muito frequentes no oeste europeu. Os elmos do caldeirão também são tipos celtas, os tipos com aves de rapina e javalis em seu topo são conhecidos tanto entre os celtas do oeste como do leste. […] A divindade com chifres pode ser identificada com o deus céltico, cultuado no oeste, Cernunnos, o qual não é encontrado no Leste […] Como podemos explicar a ambiguidade desta evidência arqueológica? […] A melhor solução para o problema se encontra na tribo celta dos Scordisci que no terceiro século a.C. se estabeleceu parcialmente no território dos Trácios […] no noroeste da Bulgaria vários túmulos escavados documentam uma coexistência aparentemente pacífica da tribo Trácia dos Triballoi e dos Scordisci, tal coexistência também é citada pelas fontes históricas […]

OLYMPUS DIGITAL CAMERA[Figura 4]

O único lugar possível para a fabricação do caldeirão de Gundestrup é nos mais altos escalões desta sociedade tribal, onde pode ter servido como um meio religioso e político de fortalecer a interrelação de poder […] Provavelmente nunca saberemos como o caldeirão estabeleceu seu caminho até a Dinamarca. Talvez ele foi trazido pelos Cimbros, que nas suas incursões através da Europa, também tiveram contato com os Scordisci. A região da Jutlândia, onde o caldeirão foi encontrado, ainda carrega o nome de uma tribo dos Cimbros: Himmerland.

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Referência: KAUL, Flemming. The Gundestrup Cauldron. In: MOSCATI, Sabatino. The Celts. New York: Rizzoli, 1991. Pags: 538-539.

-Legenda:

¹ – O Caldeirão se encontra atualmente exposto em Copenhagen no Nationalmuseet.

Figura 1: Imagem de uma das partes inferiores do caldeirão

Figura 2: Imagem interna do caldeirão onde é possível notar os detalhes nos pelos dos animais citados pelo autor.

Figura 3: Imagem do touro presente no fundo da parte interna do caldeirão.

Figura 4: Uma das placas de prata que compõem a parte interna do caldeirão com a representação de Cernunnos

Figura 5: Imagem em que é possível ver o lado interno e parte do exterior do caldeirão.

 

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Fragmentos Traduzidos #2 – Bragny-sur-Saône

Tradução, não integral, do texto: Bragny-sur-Saône: Metallurgy Center, Fifth Century B.C.

Autor: Jean-Loup Flouest

O sítio arqueológico de Bragny […] se encontra localizado em um terraço de argila arenosa a direita das margens do Saône, próximo da confluência de três rios: o Saône, o Doubs e o Dheune.

Entre 1968 e 1979 M. Guillot conseguiu […] estabelecer o importante papel do ferro e do bronze no sitio bem como a presença de uma grande quantidade de objetos vindos do Mediterrâneo. O sítio pode ser datado de fins do sexto e inicio do quinto século a.C., final do período de Hallstatt […] é possível estabelecer uma detalhada cronologia baseada essencialmente na evolução do estilo das joias ali encontradas, tais como as fíbulas, algumas podendo serem datadas graças a sua relação com a cerâmica grega[…]

Pesquisas feitas em Bragny mostram que, ao contrário das primeiras conclusões, o sitio revela ao menos duas grandes fases se ocupação dividas por um breve período de abandono […] a última fase de estabelecimento é caracterizada pela construção de oficinas para o trabalho com metais, e pela mais ou menos sucinta reutilização das construções anteriores e, sobretudo, pelos abundantes depósitos de fragmentos de metais […] O sítio de Bragny portanto nos permite estabelecer uma bem precisa distinção de data acerca do período de transição do quinto século, um momento decisivo na história dos povos Celtas.
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Vestígios de trabalho com metais pode ser frequentemente encontrado neste oppida […] Podemos dizer que […] existiram oficinas em quase todos grandes centros […] em Bragny […] ferro e bronze eram trabalhados nos mesmos locais e talvez pelo mesmo artesão […] uma ampla variedade de técnicas com trabalho em metais tem sido identificadas […]

FAB128302[Figura 2]

Uma pesquisa quantitativa dos fragmentos […] confirmam que os artesãos de Bragny atingiram um nível de produção que indica a existência de um comércio exterior para outras regiões, o que levanta a questão acerca da natureza e intensidade de seu comércio com grandes centros comerciais como Marselha e o norte da Itália. […] A presença de objetos do cotidiano nas casas, comparados com objetos de luxo recuperados dos túmulos de chefes celtas sugere a vinda de estrangeiros provenientes da Gália Cisalpina […] Deve-se dizer que o sítio de Bragny possuía consideráveis atrações econômicas. O comércio do ferro parece, no momento, ter sido a razão mais plausível […] a falta de estruturas de defesa e ricos túmulos ao redor de Bragny dão suporte a teoria de que havia um centro político em outra área. Apenas 5% do sítio foi parcialmente escavado¹ por enquanto, e […] a riqueza das descobertas já contribuem consideravelmente para o nosso conhecimento do comércio no território europeu no século quinto a.C.

Referência: FLOUEST, Jean-Loup. Bragny-sur-Saône (Saône-et-Loire) Metallugy Center. In: MOSCATI, Sabatino. The Celts. New York: Rizzoli, 1991. Pag. 118-119.

-Legenda:

¹ – Deve-se lembrar que o livro foi publicado em 1991.

Figura 1: Pingentes e fíbulas de bronze típicos da Cultura de Golasecca encontrados em Bragny-sur-Saône. Fins do sexto e inicio do quinto século a.C.

Figura 2: Esquerda: Fíbula em formato zoomórfico. Direita: Fíbula do tipo Lá Téne em bronze. Bragny-sur-Saône. Quinto século a.C.

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Fragmentos Traduzidos #1 – Os Taurisci

O texto apresentado abaixo é o primeiro de uma série de textos que estarão presentes neste blog como meio de difusão do conhecimento acerca do mundo celta: a tradução de textos de cunho acadêmico. Não se trata aqui de uma tradução completa do texto em questão mas sim de fragmentos do mesmo, partes consideradas mais pertinentes, importantes e interessantes.

O texto é de autoria de Dragan Božič, intitulado The Taurisci e presente no livro The Celts sob coordenação de Sabatino Moscati.

– Os Taurisci

Os trabalhos de antigos autores nos fornecem pouca informação sobre os Taurisci da parte leste dos Alpes que habitavam o território do centro e leste da atual Eslovênia e o noroeste da Croácia, ou sobre seus trezentos longos anos de história, do fim do quarto século até o fim do primeiro século antes de Cristo. Estrabão sustenta que este era um povo Celta.

De acordo com ele, Nauportus, a moderna Vrhnika, estava situada à sudoeste de Ljubljana, este foi um de seus territórios. Aqui, bens transportados por carretas da colônia romana de Aquileia eram transferidos para barcos que os levava de Ljubljana e pelo rio Sava abaixo até Segestica na Panonia, próximo a Sisak, e daí para o Danúbio e as áreas adjacentes a este.

Seus vizinhos a oeste eram os Carni, que controlavam Tergeste, Friuli, Carnia, e a área que hoje é parte ocidental da Eslovênia. Ao norte estavam os Norici… e a leste estavam os Pannonii, que habitavam ao longo do rio Sava, e os Scordisci ao longo do Danúbio e ao sul os Iapodi, que viviam na moderna Lika e no vale do rio Una.

É possível que os Taurisci estiveram envolvidos nos eventos durante os anos de 171-170 a.C. mencionados por Tito Lívio. Em 171 a.C. o cônsul C. Cassius Longinus, deixou a Gália Cisalpina por iniciativa própria, e marchou através da Ilíria, até alcançar a Macedônia, onde ele decidiu lutar na guerra entre romanos e macedônicos…. Sob ordens do Senado Romano ele e suas tropas foram forçados a retornar e… seus soldados saquearam as terras dos Carni, dos Istri e dos Iapodi… eles também saquearam as terras e vilas pertencentes a povos alpinos.

O que pouco se sabe acerca da história dos Taurisci é complementado pelas evidências arqueológicas, as quais podem nos oferecer registros detalhados dos eventos ocorridos nas áreas das baixas colinas do sudeste alpino antes da colonização (romana). Abrangendo o quinto e quarto séculos a.C. quando, no berço do mundo celta na Europa Central, o rico e original período inicial da cultura de Lá Téne já estava florescendo. Aqui, contudo, os povos da cultura de Hallstatt continuavam a viver em altas e bem fortificadas vilas… Neste período os celtas começaram a se movimentar em direção ao sul e sudeste. Sua influência estava presente na adoção de alguns exemplos de armas celtas… O túmulo do guerreiro de Trbinc contendo um elmo celta de ferro, ao lado de um machado de batalha e uma ponta de lança, todos estes típicos armamentos do período de Hallstatt…

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A era de Hallstatt terminou com a colonização dos Taurisci, que conforme a arqueologia demonstra, chegaram até o território que habitavam vindos da Bacia dos Cárpatos e introduziram o período de Lá Téne… O fim do segundo século a.C. foi um momento de grande mudança cultural, este foi o início da fase final da cultura dos Taurisci, a qual durou até fins do primeiro século a.C… em fins de sua cultura os Taurisci preferiam a cremação dos membros de sua tribo que morriam, durante este período eles começaram a cunhar suas próprias moedas, como demonstra os achados arqueológicos… somente em quatro túmulos em Mihovo foram descobertas pequenas moedas de prata depositadas ali como oferenda e pagamento para a viagem para o outro mundo… A pesquisa arqueológica indica que, uma vez sob domínio Romano, os Taurisci abandonaram seus territórios e cidades mas continuaram a sepultar seus mortos nos mesmos locais como faziam antes… eles também mantiveram alguns aspectos de seus ritos funerários, isto é claramente evidenciado pelos túmulos contendo clássicas armas Romanas, como as gladios

Celts_Taurisci03_full[Figura 2]

Tal situação não perduraria por muito tempo, a propagação do domínio romano continuava… novos povos e novas ondas culturais chegavam nas áreas que estes habitavam e tais ondas vinham de todas as direções, consequentemente, com o passar do tempo, isto acarretou no desaparecimento de todos os traços dos Taurisci.

Referência: Božič, Dragan. The Taurisci. In: MOSCATI, Sabatino. The Celts. New York: Rizzoli, 1991. Pags 471-477.

-Legenda:

Figura 1: Elmo de Ferro encontrado em Mihovo. 1st century B.C., Vienna, Naturhistorisches Museum.

Figura 2: Exemplo de moeda que circulou pelo território dos Taurisci. 2nd/1st century B.C. Ljubljana.

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